A VIDA NO BAR DO CLAUDINO

   Por Edilson Santana de Sousa

No último lustro do século passado, numa área com cobertura mais ou menos preservada, na margem esquerda da estrada da Raposa (MA-203), próximo (lado oposto) do atual bairro Pirâmide, Município de Paço do Lumiar, morava um casal que, nos finais de semana, improvisava um bar para complementar a renda familiar.

Moravam naquela casa Zelna, uma mulher muito extrovertida e inteligente, estudante, com não mais do que três décadas de existência, que cuidava dos negócios da família; e Claudino, um boêmio qualificado, culto e atento aos fatos relevantes na ordem política e social, que, juntamente com sua consorte, buscavam, nos seus ofícios, contribuir para o progresso humano.

Aquele casal levava a vida com descontração e alegria, e não nutria maiores ambições. Na época, Claudino se dedicava à ministração uma disciplina no Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão e, nas horas vagas, proseava com amigos que constituíam a escassa freguesia de um bar que, como dito, funcionava na própria casa.

A estrutura do bar não era o que importava. As pessoas que ali se reuniam, quase sempre as mesmas, esqueciam das horas ao som de repertórios musicais muito qualificados, que faziam fundo para boas conversas acadêmicas, sem prejuízo das piadas engraçadas e indiscretas fofocas, que ajudavam a manter a alegria e a informalidade do ambiente.

Ali se falava de gente, de trabalho e recreio, de vida e morte, de vitórias e derrotas, de alegrias e tristezas e de tudo que faz parte da vivência humana. Falava-se de fé e transcendência, política, direito, tecnologia, música, futebol, aquecimento global e inclusive da vida alheia. Em geral, tudo transcorria dentro do normal.

Não há motivo para se crer que os frequentadores daquele bar fossem menos instruídos a respeito desses temas do que os atuais debatedores. Naquelas rodas de conversas, as teses sustentadas por uns desafiavam objeções relevantes dos outros, sempre mais ou menos fundamentadas e em tom moderado e respeitoso. Era um tempo em que as certezas científicas não eram tão tripudiadas e a Estupidez ainda hesitava em subir ao panteão dos deuses.

Sob essa atmosfera de alegria e sublimação, os boêmios lavavam as toxinas geradas pelo estresse das lidas diárias ao sabor de cervejas adequadamente esfriadas, acompanhadas de deliciosos pescados. E, a despeito da opinião daqueles que pejoram o bar, rebaixando moralmente seus frequentadores, conheci ali um boêmio que afirmava, com grande convicção, ter sido com a ajuda do divã do templo a Baco que teve amenizados os sofrimentos de sua alma e as suas neuras mentais.

Ele contava que, na sua infância e adolescência, diante da inevitabilidade do pecado, sobretudo do sexo e do vinho, via-se caçado pelo Diabo, que, segundo aprendera, rondava a terra rugindo como um leão feroz procurando pecadores para os tragar (1 Pedro, 5: 8-9). Mas, para seu alento, descobriu nas escrituras que Deus dera o vinho para alegrar o coração do homem assim como o pão para o fortalecer (Salmos 104: 15), e que na tradição patriarcal a virilidade dos homens era entendida como virtude.

O Bar do Claudino era mesmo um lugar diferente. Instalado de costa para a baia de São Marcos, escondia-se na margem esquerda do caminho que levava a uma lagoa de água doce, que contrastava com o ambiente marinho e, ao mesmo tempo, atribuía-lhe novos significados, como num protesto da natureza a afirmar a virtude da diversidade e da diferença.

Na harmonia daquele espaço, sobretudo nos finais de semana, quando as noitadas se alongavam, alguns boêmios arranjavam-se ali mesmo, em redes confortáveis, gentilmente cedidas pelos anfitriões. No silêncio profundo da madrugada, eram adornados pelo melodioso canto das marés. E, ao acordar, de alma leve, iam lavar o corpo nas águas frias da lagoa.

O Bar do Claudino não existe mais; o progresso o desalojou. Mas a boemia subsistirá, em louvor dos homens e mulheres que têm a suprema coragem de serem apenas humanos, com vícios e virtudes, transformando a dor em samba, as derrotas em aprendizados e a vitórias em colheitas.

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