Por Jaile Antônio Lopes dos Santos Machado
Tentando parafrasear nosso saudoso Monteiro Lobato, em “Um Homem de Consciência”, recordo a figura de João Teodoro, homem que se julgava o menos apto para exercer um cargo público. Tão grande era sua convicção de inadequação que decidiu abandonar sua Itaoca, ao receber o inesperado convite para assumir o cargo de delegado.
No extremo oposto encontra-se o parlamentar contemporâneo. Para ele, não há sacrifício excessivo quando o objetivo é conquistar um mandato. Durante a campanha, sua oração parece resumir-se em um único mantra: na política vale tudo; só não vale perder.
Se foi eleito, é porque sua prece, de algum modo, encontrou eco. Agradeça-se, então, à divindade que, segundo sua crença, materializou esse desejo. Sobre isso não cabe julgamento. Vivemos em um Estado laico, onde todo credo merece respeito — inclusive a ausência de qualquer credo.
Entretanto, quando observamos atentamente a conduta de determinados parlamentares, algumas práticas revelam-se inquietantes. Começa pelas mais singelas. O parlamentar toma conhecimento, antecipadamente, de que o chefe do Executivo construirá um poço em determinado povoado ou pavimentará um trecho de rua. Munido dessa informação privilegiada, protocola um requerimento solicitando exatamente aquela obra. Dias depois, a execução acontece. Pronto: cria-se a narrativa de que ali está um representante diligente e eficaz.
Mas seria injusto reduzir a atividade parlamentar a esse expediente.
O parlamentar também pede apartes, faz adendos, reforça discursos alheios e, principalmente, exerce a coragem — ou aquilo que se convencionou chamar de coragem. Coragem para elogiar o chefe do Executivo quando integra sua base. Coragem para criticá-lo severamente quando ocupa a oposição. Coragem para proclamar em alto e bom som: “este é o meu prefeito”, “este é o meu governador”, “este é o meu presidente”. E, não raro, encerra sua fala com um enfático: “É verdade!”
Não se exige, para isso, o “homem médio” da teoria jurídica, tampouco um espírito dotado de especial senso crítico. Muitas vezes, basta alguém vulnerável às promessas da campanha eleitoral, seduzido pelo discurso fácil e pelo benefício imediato. Afinal, em sociedades marcadas pela desigualdade, manipular consciências sempre foi mais simples do que formar cidadãos. O que é repetido continuamente acaba parecendo natural. E aquilo que se naturaliza deixa de causar espanto.
Mas o que verdadeiramente nos afasta do mesmo chão ocupado por um parlamentar é quando, em um momento decisivo para o país, ele escolhe a neutralidade.
Opta pelo silêncio.
Silencia porque teme contrariar uma sociedade polarizada. Silencia porque calcula o custo eleitoral de cada palavra. E, nesse instante, ressurge sua antiga oração de campanha: na política vale tudo; só não vale perder.
Assim, resta-lhe administrar cuidadosamente seus posicionamentos. Controla a entrada e a saída das palavras como quem regula um esfíncter, filtrando cada manifestação para que ninguém consiga identificar de que lado realmente está. Não se compromete. Não assume riscos. Não representa convicções; administra conveniências.
O mais curioso é que cada grupo político continua acreditando que aquele parlamentar permanece fiel ao seu respectivo candidato ao Executivo. A ambiguidade torna-se estratégia. O silêncio converte-se em cálculo. E a neutralidade passa a ser apenas outra forma de sobrevivência política.
Que todos permaneçam em paz.
Mas, quanto a mim, parlamentar que escolhe a neutralidade quando o momento exige posição não merece mais o meu voto.
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