O FENÔMENO
As recentes notícias em sites, e as crescentes buscas no google sobre o nome de Augusto Cury apontam substancialmente o crescimento do candidato à presidência pelo Avante, que se destaca nas redes sociais. Com isso, um número crescente de pessoas começou a publicar suas intenções de voto para o médico psiquiatra e autor de best-sellers de autoajuda, tratando-o como a cura de um país politicamente doente. Mas qual é o problema?
Acontece que, diante da grande polarização política entre petistas e bolsonaristas, uma quantidade enorme de pessoas voltou-se para uma terceira via que julgam ser competente. Cury marcava 1% no Quest e 2% no Datafolha “números modestos, mas em trajetória ascendente”, e ainda sem captar o efeito do debate de 23 de agosto na Bandeirantes. Foi ali que ele ultrapassou Renan Santos (Missão), até então o nome mais forte da chamada terceira via nas redes, empatado com Ronaldo Caiado (PSD) na disputa pelo terceiro lugar. O que catapultou Cury não foi um plano de governo. Foi um contraste: diante do tom mais duro de Renan Santos, o psiquiatra ofereceu ponderação.
O extremismo de Renan Santos e a postura ponderada do psiquiatra diante da fala de seu adversário deram foco principal e um holofote a mais para a campanha de Cury. Numa busca por um ambiente mais equilibrado e menos polarizado, boa parte dos brasileiros passou a enxergar Augusto Cury como uma luz no fim do túnel para um país cansado de escândalos de corrupção e de rivalidades políticas. Mas qual é o problema?
O ELEITOR QUE NÃO VOTA, REAGE!
O problema é perceber que a boa parte do eleitorado sequer sabe, compreende ou estuda política; acha que o período eleitoral é “a política” e não entende a realidade da organização de uma sociedade nem o que é patrimônio público. Em um país marcado pela defasagem no ensino e no desenvolvimento intelectual, a maioria das pessoas acaba se deixando levar por vídeos curtos de no máximo 60 segundos. Será que um minuto é suficiente para que o brasileiro escolha o melhor presidente para os próximos anos de governo?
Esse cenário só mostra o quanto a maioria dos brasileiros é limitada e politicamente analfabeta. Infelizmente, a grande massa não compreende a engrenagem do desenvolvimento público e, por isso, é facilmente ludibriada pelas engrenagens do sistema. Isso corrobora o que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de sociedade líquida: sem consistência social e sem condições de tomar decisões de suma importância para os rumos de uma nação.
Um presidente exerce a função de presidente, mas a grande maioria das pessoas não faz ideia de quais são as reais obrigações e deveres de um chefe de Estado que vive em um sistema presidencialista, no qual não há concentração de poder suficiente para resolver sozinho todos os problemas de um país que possui divisão de poderes justamente para não se tornar uma autocracia.
SOLUÇÃO PARA QUEM?
É por isso que a resposta à pergunta do título: problema ou solução? não pode ser uma palavra só.
Augusto Cury pode ser uma solução para a polarização política, mas, infelizmente, apenas na esfera do Executivo federal. A grande problemática é que o eleitor não compreende a tripartição dos poderes e não observa a extrema relevância das Câmaras Legislativas e do Senado Federal. A polarização continuará presente no país por meio desses canais. Por conseguinte, a questão central desse debate é que, sim, ele pode ser a solução para uma parte do setor social do Brasil.
QUEM É, DE FATO, AUGUSTO CURY
Augusto Cury é um empresário de sucesso. Ao registrar sua candidatura à Presidência da República em agosto de 2026 pelo partido Avante, declarou ao Tribunal Superior Eleitoral um patrimônio total consolidado de R$ 242.281.726,79. Sua fortuna é composta por participações societárias, empréstimos a empresas, investimentos no mercado de capitais e ativos imobiliários, fruto de sua carreira literária e de empreendimentos educacionais como a Escola da Inteligência e a Menthes, além de participações nos lucros do agronegócio.
É notório que, assim como os rumos seguidos por seu partido, Augusto Cury representará a classe empresarial. Ele é, portanto, uma boa opção para a direita brasileira, conservadora e centralista. Por outro lado, torna-se um problema para quem se inclina a um pensamento mais progressista, voltado à melhoria de vida dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Para essa vertente social, o candidato do PT ainda é uma boa opção para manter e reafirmar o que muitos chamam de era Lula.
Ao se referir à pauta petista mais importante do governo atual que é o fim da escala 6×1, Cury traz o discurso médico do crescente aumento da síndrome de burnout e propõe a escala 5×2 para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. No entanto, ele deixa a proposta em aberto e não é enfático quanto a isso: afirma que alguns setores ainda precisariam permanecer na escala 6×1, pois, segundo ele, a diminuição dos dias de trabalho acarretaria uma redução na cadeia produtiva. Discurso típico de um empresário que não deseja pagar mais pela produção de um funcionário.
Portanto, o candidato será, de certa forma, uma boa escolha para os direitistas, ao mesmo tempo em que mantém forte distanciamento das pautas trabalhistas e de desenvolvimento pessoal, apresentando a diminuição da escala como medida populista, mas com um risco embutido ao afirmar que alguns setores deveriam permanecer na mesma jornada. Por isso, se sua popularidade aumentar a ponto de levá-lo ao segundo turno, ele tomará para si os votos de Flávio Bolsonaro, além de boa parte dos eleitores indecisos que se recusam a votar no segundo turno por falta de boas opções. Dessa forma, ele se torna, agora, a principal ameaça à reeleição do petista.
Diante desse cenário, fica evidente que o governo Lula, mesmo com suas contradições e dificuldades de articulação com o Congresso, ainda representa o projeto político mais comprometido com a pauta trabalhista no Brasil atual. Enquanto Cury hesita em bater o martelo sobre o fim da escala 6×1 (condicionando a mudança à manutenção de setores inteiros na jornada exaustiva) o governo petista trata o tema como prioridade de Estado, reconhecendo que a saúde mental e física do trabalhador brasileiro não pode ser moeda de troca da produtividade. É essa diferença de compromisso, e não apenas de discurso, que separa uma candidatura empresarial de um projeto que nasceu do chão de fábrica e do movimento sindical.
Por isso, a permanência de Lula e da esquerda no poder não é apenas uma escolha entre nomes, mas a garantia de que a luta pelo fim da escala 6×1 e de outras pautas relevantes para que continue avançando sem os freios de mão que candidatos como Cury já deixam entrever. Manter esse projeto à frente do Executivo significa sustentar políticas de valorização do trabalho, redução da jornada e fortalecimento dos direitos trabalhistas, pautas que dificilmente sobreviveriam intactas sob um governo mais alinhado ao empresariado. Se o Brasil quer, de fato, romper com o ciclo de exaustão que marca a vida de milhões de trabalhadores, a continuidade desse projeto político não é detalhe: é condição.
No fim, é preciso dizer com clareza: Augusto Cury não vai acabar com a polarização. A tripartição dos poderes, o Congresso e o Senado continuarão divididos entre os mesmos blocos, independentemente de quem ocupe o Planalto. O que ele pode ser, de fato, é uma alternativa competitiva para a classe empresarial, um rosto mais ponderado, mas com o mesmo compromisso de fundo com os interesses do capital. Já para a classe trabalhadora, Lula segue sendo a opção mais consistente. Lula, foi em disparado o único presidente a história do Brasil que mais proporcionou crescimento ao país, dando inclusive, dignidade para milhares de brasileiros que outrora eram esquecidos pelo Estado. Entre um “equilíbrio” que preserva os privilégios de sempre e um projeto que nasceu comprometido com o trabalhador, a escolha não deveria ser difícil. Então, qual é a sua?
SOBRE O AUTOR

William Santos Cavalcante
Professor de Filosofia e Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Olímpiadas do Conhecimento (NPOC) do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão(IEMA) Pleno de Barra do Corda. Possui graduação em Filosofia pelo Instituto de Estudos Superiores do Maranhão (2020) e graduação em História (2024), além de Pós-Graduação em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Católica Paulista (2021) e Pós-Graduação em Psicopedagogia pela Faculdade Campos Elíseos. Atua nas áreas deFilosofia, História e Sociologia, com ênfase em Filosofia Contratualista, Filosofia do Direito e Filosofia da Educação. É autor do livro Friedrich Nietzsche: O Sofrimento comoRessignificação da Vida, publicado pela Editora Saber Criativo.
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