
Fonte: criado por IA a partir da interpretação do texto.
A divulgação das mensagens comprometedoras, trocadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro com o pré-candidato da extrema direita à presidência da República, Flavio Bolsonaro, que seria o representante da maioria dos evangélicos, causou no espírito de um amigo dos tempos da minha juventude aparente esvanecesse da esperança.
Na verdade, aquilo que os diálogos revelam não deveria surpreender nem mesmo a “Velhinha do Taubaté”.[1] Ademais, acho que o impacto da “surpresa” não deveria ser para tanto, já que meu amigo, um convicto seguidor de Jesus de Nazaré, conhece a lição de Jesus que: “Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (João, l6:33).
Tenho mesmo dificuldade de entender as decepções dos seguidores do Nazareno com as coisas da ordem política e social, assim como, com a própria devoção que muitos deles tem por certos homens. Ora, porque me frustro com essas coisas se, como tantas vezes ouvi no ambiente evangélico “Este mundo não é nossa pátria” (Hebreu, 13:14). Às vezes tive vontade de perguntar por que renuncio às coisas do mundo quando deveria, por exemplo, defender um rio contra a exploração irracional dos campos, mas, ao mesmo tempo, luto avidamente pelo poder temporal e, olvidando a lição do profeta Jeremias (17:5), credito a homens ímpios a própria defesa do evangelho.
Pois bem, segundo o Nazareno, mestre perfeito, que viveu o que ensinou e ensinou o que viveu, o cristão deve iluminar o mundo com seu exemplo de amor, solidariedade, alteridade e retidão. Nesse sentido, parece inquestionável que se o caminho proposto por Jesus fosse a tomada do poder temporal para, com as forças do Estado, impor padrões de comportamento cristão, Jesus teria tomado o Império Romano e instaurado o reino que anunciava.
Não me parece difícil entender isso. Aliás, está escrito: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos, 16:15). A ninguém foi ensinado, impor o evangelho de Jesus a toda criatura. Todas as vezes em que a Igreja se entregou a esse deleite espúrio da relação privilegiada com o poder temporal resultou em corrupção e tirania.
Isso não quer dizer que o evangélico não deva exercer o poder político. Claro que não. Na verdade, o Estado é que não deveria, de forma alguma, se identificar com qualquer confissão religiosa. Assim, nenhuma forma de culto jamais seria ameaçada; a liberdade religiosa seria plena. O cristão investido em cargo público teria dois estatutos a seguir: no exercício das funções públicas, a Constituição; na sua profissão de fé, a Bíblia.
Entre essas duas ordens não há conflito.
[1] Personagem criado pelo cronista e escritor Luis Fernando Verissimo, na década de 1980 como sendo a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo.
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