A NEUTRALIDADE E O INFERNO DE DANTE

 

Por Jaile Antonio Lopes dos Santos Machado

A neutralidade é uma bênção. As pessoas neutras são referidas por todos como “gente boa, maravilhosa”. Desfrutam de amizades improváveis, trânsito livre em todos os lugares, cargos de confiança nos governos (independente do partido). Lavando as mãos como Pilatos e afirmando-se dotado de passividade cristã preferem dizer: “não sei, não vi e ignoro quem sabe”. Desde tenra idade, aprendem com os pais a representação dos três macaquinhos emblemáticos: um com as mãos nos olhos; outro com as mãos nos ouvidos; o  terceiro com as mãos na boca.

Em certa medida, os pais têm razão, para protegerem sua prole de possível perda do emprego, repreensão severa, boletins de ocorrência na Delegacia de Polícia, notícias negativas em blogs ou coisas piores. Os detentores do poder são ousados quando defendem suas posições e seu “bom nome” contra atos daqueles que não se submetem.

Há os que fazem de sua “neutralidade” servil moeda de troca nas relações de poder e, muitas vezes, se dão muito bem. Na verdade, são neutros apenas no jeito de serem partidários enquanto ajustam suas conveniências e interesses. Um exemplo pitoresco é o casal romântico, de braços abertos, diante da Torre Eiffel, curtindo experiência de prazer e liberdade, alcançada ao preço de sua “neutralidade” sem nenhum autoquestionamento.

É possível que muitos de nossos pais acreditavam que uma vez vencedores nos desafios que empreendemos, a sociedade nos prestaria honra ao mérito pelo simples fato de termos nos habilitado para integrar a galeria dos vencedores. Não é simples assim. A meritocracia não se satisfaz com o mérito. No seu tempo, Machado de Assis, para ser o patrono das letras, no Brasil, precisou não ser o mestiço que era.

Essa neutralidade é a mãe das desigualdades sociais: gerações após gerações, a humanidade segue seu curso, com a ampla maioria desprovida de condições mínimas de alimentação, habitação, educação, saúde e segurança. E se alguém, com sensibilidade e coragem, desafia essa maré de “normalidade” anticristã é rotulado pelas mídias da dominação e pelos seus vogais de esquinas, feiras e bares como raivoso, falastrão, polêmico, anarquista, comunista, recalcado ou todos esses pejorativos juntos.

No entanto, é certo que sem esses “loucos” que desafiam a tradição dos donos da terra e da vontade do povo, as transformações sociais não aconteceriam. Afinal, sem a perigosa ousadia dos abolicionistas não teria havido abolição e sem a coragem de Giordano Bruno e Galileu Galilei (embora este tivesse se retratado) ainda estaríamos acreditando, como alguns ainda acreditam, ser a terra redonda e plana.

Mas, como nenhuma escolha é sem risco, a “neutralidade” servil, para muitos, tem prazo de validade, que vence quando menos espera o (não tão) inocente útil. Dessa forma, os heróis da prudência servil, muitas vezes, se asfixiam (e perecem) na carência da dose adequada de ousadia. Perecem e vão para o inferno de Dante Alighieri, que diz: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise.”

 

Deixe uma resposta